sábado, fevereiro 07, 2004

Guess who's back

Como toda a gente que me conhece e como provavelmente grande parte dos clientes da "A Tasca" já devem ter reparado, eu sou uma pessoa apaixonada (mas não apaixonante, pelo menos segundo o Carta de Amor). Apaixono-me pelas pessoas, apaixono-me pelas situações, apaixono-me pela música, pelos sorrisos, pelos olhares e por tudo aquilo que desperta em mim o maior sentimento de todos, aquele sentimento que não tem nome (e ainda bem, porque assim mantém-se imutável e universal, clandestino mas presente).

E quando eu já não me lembro da última vez que me deixei cair para trás sem medo, e ficar a ver o sol, com o calor a bater na cara, e agarrar com força a ervazita que me envolve, molhada (nestas alturas choveu sempre na noite anterior), ou quando já não me apaixono por nada, porque a angústia é demais, então alguma coisa está mal.

E é assim que me tenho sentido nos últimos tempos. Sem paixão pela vida, sem amor, sem amigos (que sei que tenho, mas às vezes parecem tão longe..), à espera de tempos que já foram e não voltam mais, ansiando por pessoas que já não são as mesmas e mãos dadas que já não se dão, ficam frias, cada uma para seu lado.

Acontece que um dia destes foi a gota de água. O vazio que eu era (ou sou) tornou-se um buraco negro que ameaçava engolir-me. Morreu uma pessoa que era muito importante para mim. Uma morte anunciada, mas nunca completamente esperada. Uma pessoa que me inspirou e que eu tenho perfeita consciência que me influenciou em muito do que penso agora (e de como o penso), uma pessoa que sempre me fascinou pelo seu carácter e que me desafiava constantemente a pensar mais além e a superar-me. Ele era assim com todos.

(lembro-me de uma vez, na semana antes do exame de filosofia, em que nós como que "apostámos" que ele podia baixar-me o 18 para 17 que eu conseguia tirar 19 no exame para subir a nota outra vez para 18. E tirei o 19.)

Ele era daquelas pessoas que, para todos os efeitos, eu sentia como imutável. Eterna. Já cá estava quando eu cheguei, e ainda haveria de estar, igual a si mesmo, muito depois de eu me ter ido. Uma pessoa portadora de um discurso cultíssimo e articulado, inteligente, cumpria com os seus deveres para com a sociedade e ainda contribuía com que pudesse dar de si. E tudo o que dizia era no bom sentido, o que não fosse era apenas para nos levar a tentar superar-nos. E era do Benfica!

E, num ápice, foi-se. Morreu. Incompreensivelmente. Saudável, sem nunca ter fumado, sem problemas de saúde, e de repente aparece um cancro fulminante que lhe rouba a vida. E a família e amigos, a verem tudo sem poderem fazer nada.

Custou muito vê-lo definhar, a pouco e pouco. A perda de cabelo, o andar, a fala... mas ele continuou a ir trabalhar, todos os dias, entre muito sofrimento ele continuou a dar tudo de si, um autêntico exemplo para nós, que nos vamos abaixo com a mais ténue vicissitude.

Há tanta coisa por dizer e escrever, mas não quero receber muitas queixas da clientela e Gerência de que as minhas litradas são demasiado grandes, e por isso fico mais ou menos por aqui. Chorei muito por esta pessoa que o merecia, e ao mesmo tempo, amei também muito, muito, acima de tudo, outra pessoa. E há dias em que tudo corre mal, e nos fazem pensar duas vezes. Ou três. E eu simplesmente fiquei sem vontade de me levantar da cama de manhã (não que a tenha muitas vezes), e não me sentia em condições de encarar as pessoas nem de servir convenientemente os clientes da "A Tasca", que merecem tudo o que eu lhes possa dar. Peço desculpa por esta interrupção, a emissão segue dentro de momentos.

(Ah, e fiquei muito sentido pelos posts, comentários, mails e ameaças de morte, em prol da minha vinda; e se alguém já tiver respondido ao anúncio da máquina do tempo que o Moelas colocou, agradecia que mo comunicasse, também quero voltar atrás no tempo para poder não chorar por quem merece, e para poder amar demais outra vez)

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