sábado, fevereiro 14, 2004

IV

Houve um tempo em que eu sinceramente tentei me acertar com uma só pessoa. Decidi ter um namorado. Mas não me sentia satisfeita. Quem sabe quisesse que ele fosse tudo e nada ao mesmo tempo. Algo como o Dia e a Noite, o Frio e o Calor, O Céu e o Inferno, Yin e Yang e todos os outros opostos que se podem encontrar. Tudo numa mesma pessoa. Lógico que não encontrei alguém assim. E decidi ficar sozinha. Mas como seres humanos que somos, sozinhos não vivemos. E fui de novo atrás de um namorado. Mas dessa vez, um pouco mais vivida e decidida do que queria, procurei por apenas 5 coisas. Um cara legal e companheiro, bonito e popular, com dinheiro e um carro, inteligente e, é lógico, bom de cama.

Conheci o João. Ah João!!! Ele era bonito. BEM BONITO. Não sei onde nos conhecemos pela primeira vez. Saí a noite com umas amigas e ele estava lá. Lindo! Divino! Perfeito! Ele e os amigos dele. Todos aqueles caras lindos e maravilhosos que saem em todos os sites de baladas. Em todas as revistas da cidade. Aqueles caras que todas as meninas conhecem e pelos quais todas são apaixonadas. Não me lembro bem como foi que aconteceu. Mas ele veio falar comigo. Aqueles olhos claros olhando pra mim. Ele estava lá, falando comigo, com aquela boca maravilhosa que você deseja mais que tudo. Em um segundo aqueles braços perfeitamente malhados me abraçaram. Coloquei minhas mãos na barriga mais durinha da face da terra. Não me parecia possível a cena. Era ele. O João*. O cara mais desejado da cidade. E eu, ninguém! Mas foi real. Ele pediu meu telefone no fim da noite. Passei o celular. Ele me pediu o da casa. O telefone dele estava cortado. Não tinha como ligar pra celular. O cara mais lindo da cidade não tinha telefone. Nem carro. Era pé rapado. E menor de idade. E burro. Uma porta. Uma hora paramos pra conversar. Arrependi-me profundamente de não continuar a beijá-lo e assim, mantê-lo sem ter como falar. Só abobrinhas saiam daquela boca. Mas no fim, nem beijá-lo valia tanto a pena. Ele se dizia o garanhão. Mas ele beijava mal. Bem mal! Ora me sufocava, ora parecia estar com a boca morta, sem vida, parada! Era a típica embalagem linda, sem o menor conteúdo. E era um galinha. Não sei se todos conhecem essa expressão. Mas apenas pra descrever o que isso seria, na mesma noite lembro do João beijando mais 5 meninas. E sem o mínimo critério. Caia na rede dele, era peixe! E lógico, mesmo passando meu telefone pra ele, ele não ligou. Mas ainda nos vemos às vezes. E sempre acabamos juntos. Ele diz que eu sou a namorada dele. Sei que não sou, mas pra que me importar? Sou "namorada" do cara mais bonito de Sorocaba. Eu e TODAS de Sorocaba.

O Luis* me apresentaram. Minha amiga conhecia ele já faz um tempo e me apresentou. Não era bonito. Ele era, digamos, feio. Eu tinha saído aquele dia totalmente despreparada. Minha amiga me esperou na minha escola de Francês e me arrastou para ir com ela no shopping. Encontramos com ele lá. Eu estava sem um tostão na carteira. E minha amiga me inventa de comermos algo. Disse que estava sem fome, mas meu estômago roncava mais que motor de Fusca. O Luis me convenceu a pegar algo pra comer. Pedi uma água e umas batatas fritas. Porção pequena. Ele disse para me trazerem um milkshake grande, especial com cobertura e chantilly e um lanche de peru grelhado, detalhe, o mais caro do cardápio. E lógico, batatas. Mas a porção Extra-Grande. Acabei admitindo que não tinha dinheiro pra pagar. Ele disse que pagava. E pagou. O meu, o dele e o da minha amiga. Voltamos para ver as lojas. Minha amiga ia comprar uma sandália. Eu vi o tênis da minha vida na vitrine. Comentei com minha amiga. E o Luis ouviu. Perguntou quanto eu calçava. Não respondi. Minha amiga respondeu por mim. Nem implorando pra ele não gastar aquele dinheiro eu o convenci. Ele me comprou o tênis. À vista! Sem desconto. E inteirou o que faltava na sandália da minha amiga. Antes de irmos embora ele ainda me inventa um cinema. Lógico, que ele ia pagar. Estava eu sem carteirinha da escola. Ele pagou as entradas, todas inteiras. Não tive como recusar seu pedido de namoro. No meio do filme. Não foi romântico. Ele não era romântico. Na verdade parecia que ele nunca tinha feito isso na vida. Era extremamente tímido. Ele não sabia como me abraçar, ou me beijar. Era bem desajeitado quanto a isso. Mas se esforçava. Quando fomos embora, ele inventou de levar-nos em casa. Entramos no carro dele. Uma caminhonete. Não intendo de carros. Mas era importada. Disso eu sei. Dentro do carro havia tudo que se podia imaginar. Era o carro mais caro que eu já tinha andado na vida. E ele ligou o som. Era uma mega aparelhagem de som. Mas ele ouvia Funk. E digo Funk Carioca, com todas as suas "popozudas", "cachorras" e "potrancas". Era horrível. Aquele som, no último! Ao chegar em casa, havia quase passado por uma lavagem cerebral. Depois disso, todas as terças saímos. Ele me leva pros restaurantes mais caros da cidade. Sempre que vai me buscar, está com um presente diferente. Hoje, tenho roupas de marca. De todas as marcas. Perfumes importados. Jóias de verdade. Em ouro e prata puros. Tenho uma viagem pro litoral norte agendada pro fim do ano. E um "namorado" que ouve pagode, é um nerd e beija mal.

Já fazia umas 2 semanas que minhas aulas tinham começado. Havia entrado um menino novo que sentava do meu lado. Nunca havia achado na minha vida um menino tão inteligente como aquele. Marcos* o nome dele. Ele era um gênio. Sabia tudo de Matemática e Física e era ótimo em Português e Redação. Já tinha viajado um monte. Pra todos os lugares. Adorava todos os tipos de música (e quando digo música, quero dizer, música mesmo!). Tocava piano, violino, guitarra e bateria. E flauta, trompete, trombone, baixo, percussão, cavaquinho, violoncelo, oboe, gaita e sanfona! Falava Inglês, Francês, Alemão, Japonês, Italiano, Grego e Latim Clássico. Ele era um gênio. Pelas horas que passavamos conversando todos falavam que namoravamos. E até namoravamos. Mas eram raras as vezes que trocavamos carinho, beijinhos e palavras de amor. Ele gostava de falar. Mas ficava falando dele, apenas dele, e do que ele sabia, e do que ele fazia. E só falava. Não era do tipo que sairia passear comigo e meus cachorros. Não era do tipo que iria comigo jogar volley, ou nadar. Não era do tipo que sairia de noite comigo. Achava ser auto-suficiente. Mas era um mala. Era um gênio, e sabia disso. Ficava se gabando. Aprendi MUITAS coisas com ele. Muitas mesmo. Mas ele era fechado à aprender também. Ensinava super bem. Sempre que tinha dúvidas eu ia estudar com meu "namorado". Mas estudar era tudo que faziamos.

Quando eu não estudava, descia jogar volley. O Felipe* era meu companheiro de time. Não importava quem mais estivesse em quadra. Nós dois sempre tinhamos que estar no mesmo time. E não era apenas no volley. Se iamos nadar, iamos junto. Se iamos passear na praça com nossos cachorros, iamos junto. Jogavamos video-game juntos, e depois comiamos soverte com pão de forma, ouvindo aquelas bandas que só nós gostavamos. Ficavamos os dois deitados na cama, de ponta-cabeça, apenas contando piadas sujas. E rindo muito. Minha barriga doia de tanto rir com ele. E ele sempre tinha boas piadas, histórias engraçadas e bons conselhos. Sempre que eu estava triste, ele me alegrava. Sempre que estava com problemas, ele me ajudava. E ele sabia como ajudar. Ele sempre dava os conselhos certos. Mesmo sendo mais novo. Eu fui a primeira menina que ele beijou. Ele ainda era uma criança. E como todos sabem, meninos amadurecem depois de meninas. E ele não tinha amadurecido ainda. Mas era o meu maior companheiro. Pra tudo. Pra nos enterrarmos na areia da praia. Pra subir em árvores. Pra contar histórias de terror a noite numa barraca de quintal. Tudo que era divertido eu fazia com ele. Mas pra ele tudo era brincadeira. Se eu queria namorar um pouco ele preferia que andassemos de skate. E eu acabava aceitando. Pena que esse meu "namorado" nem pra brincar de casinha.

O Pedro* sim brincava de casinha. De médico. De papai e mamãe. E tudo o mais que você quisesse. Quando nos conhecemos não me lembro nem de ter falado Oi. Ele me encostou na parede e me beijou. E estava com o Luis e ele não podia ver aquilo de jeito nenhum. Eu ia recusar, mas como recusar aquilo? O Pedro me fazia de lagartixa. E eu gostava. Me beijava como eu nunca tinha sido beijada antes. Se ele sugerisse qualquer coisa eu aceitava. Se não tivesse o risco do Luis ver então, acho que eu mesmo já teria sugerido. Aquele menino era quente. No sentido mais pervertido da palavra. Desculpem a minha excitação literária. É que optei por não descrever a excitação corporal. Ele nem era bonito, nem tinha uma boca carnuda e macia. Nem era malhadão. Mas e quem disse que isso importa? Ele sabia como fazer uma mulher BEM satisfeita. Mas ele parecia nunca estar satisfeito. Sempre queria mais. Ele ainda me liga. "Vem em casa!". Sempre tinha que ser na casa dele. Ele não tinha grana pra motéis, ou derivados. Para um jantar romântico. E de romântico não tinha nada. Era um grosso, mal-educado até. Mas quem resistia à ele!? Sempre que eu chegava no prédio, o porteiro me perguntava. "Como você aguenta ele?!" Ah, aguentando. Quem não aguenta um "namorado" desses?

Mas eu vou lá só em sextas. Com o Pedro. Pois de terças saio com Luis. Vamos jantar. De quintas tenho plantão de dúvidas com o Marcos. Passo a tarde na biblioteca com ele. E sabadão saio a noite. Ver o João. Ele só sai de sabado. É mais popular. Domingo acordo tarde, normalmente com o Felipe me chamando pra irmos nadar. Ou jogar volley. Ou andar se skate. Segundas e Quartas tenho livre. Às vezes saio com as amigas. Às vezes com a família. Família que por sinal acha o Luis um anjo, o Felipe uma gracinha, o João lindo, o Marcos um menino exemplo e o Pedro, bom, ele não seria um bom assunto de família.

Não que eu tenha realmente 5 namorados. Não que eu tenha 1. Mas não que eu esteja sozinha.

*Nomes fictícios."



Larissa, Ilegítima Defesa

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